Colegiado definiu quatro temas para as reuniões do segundo semestre de 2025, buscando uma perspectiva integrada sobre saúde, políticas públicas e cidadania
Colegiado definiu quatro temas para as reuniões do segundo semestre de 2025, buscando uma perspectiva integrada sobre saúde, políticas públicas e cidadania

Reunião temática sobre a Ciência da Implementação, realizada virtiualmente em 13/11/2025
Brasília, 9/1/2026 — O Comitê Científico sobre Prevenção e Cidadania — CRIA Ciência realizou, ao longo do segundo semestre de 2025, quatro reuniões acerca de temas que compõem os estudos de políticas sobre drogas, incluindo a prevenção ao uso de álcool e outras drogas. As reuniões abordaram os seguintes tópicos: determinantes sociais; a interface com a redução de danos, com análise crítica sobre contextos em que se aplica; ciência da implementação na prática, sustentabilidade e monitoramento; e interseccionalidade.
O objetivo das reuniões, cujos temas foram definidos pelo Comitê em encontro realizado em agosto, foi aprofundar o debate teórico acerca da prevenção baseada em evidências — em diálogo com temas essenciais relacionados a políticas sobre drogas no Brasil. As discussões possibilitam um avanço na proposição de recomendações práticas para fortalecer a prevenção no Brasil, trazendo respostas aos desafios nacionais e seus diversos contextos territoriais.
Determinantes sociais
No encontro realizado em 18 de setembro, foi discutido o papel dos determinantes sociais de saúde no contexto do uso abusivo de álcool e drogas. O estudo permitiu a reflexão sobre como indivíduos e coletividades expostos a condições de vida precárias apresentam riscos diferenciados de adoecimento, já que as condições socioeconômicas impactam diretamente no bem-estar físico, mental e social das populações. O grupo discutiu a importância de o Estado atuar como mitigador de desigualdades evitáveis e injustas, além de destacar a importância da articulação intersetorial envolvendo educação, trabalho, habitação, segurança alimentar, justiça e proteção social para que a abordagem em saúde não se restrinja ao setor médico-assistencial.
Na análise sobre a interface com a Prevenção, concluiu-se que os determinantes sociais de saúde promovem um olhar ampliado para a prevenção, incorporando elementos de desigualdades sociais estruturais ao pensar no uso e uso abusivo de drogas, tanto em relação aos fatores de risco quanto em relação aos fatores de proteção.
Redução de danos
O tema da redução de danos foi a pauta do encontro realizado em 30 de outubro. Na ocasião, o Comitê recebeu a consultora Larissa Nobre Sandoval, responsável pela sistematização das discussões do grupo em relatório técnico, que deverá conter propostas metodológicas que irão orientar o próximo ciclo de trabalho. A discussão sobre o tema guiou-se pela ideia de redução de danos como paradigma ético e político de cuidado, privilegiando uma abordagem integral, que reconhece a autonomia dos sujeitos, a centralidade do cuidado e a promoção da cidadania.
O debate sobre a interface entre a Redução de Danos e a Ciência da Prevenção reafirmou que no escopo do Programa CRIA não se considera a redução de danos como estratégia aplicável a crianças e adolescentes, público prioritário das ações do programa. Para essa faixa etária, as ações preventivas devem ter como objetivo central a não iniciação e a inexistência de consumo de substâncias psicoativas, conforme preconizado pela Ciência da Prevenção em todas as suas vertentes — que enfatizam a redução das vulnerabilidades, o fortalecimento de fatores de proteção e a redução de fatores de risco no ambiente, contexto familiar, escolar e comunitário.
Entretanto, a experiência brasileira da redução de danos, como estratégia de cuidado e prevenção a diferentes formas de violência e como fator de proteção entre o público que já faz uso de substâncias psicoativas, precisa ser considerada a partir da compreensão do uso e abuso de drogas como questão social complexa e multifatorial, alinhada aos direitos humanos. Portanto, é necessário considerar no escopo da pauta da prevenção um conjunto de estratégias amplas e coesas de promoção de cuidado coletivo, de criação de oportunidades de exercício de direitos e de prevenção de violências, focadas nas pessoas e nas comunidades e em diálogo com os territórios, que cria pela prática um conceito emergente: a prevenção ampliada.
Ciência da Implementação
Realizada em 13 de novembro, a terceira reunião temática abordou a Ciência da Implementação na prática, sustentabilidade e monitoramento. A reunião teve como objetivo técnico dialogar sobre critérios, parâmetros de qualidade, riscos metodológicos e diretrizes operacionais para incorporar a ciência da implementação nas recomendações oficiais do CRIA, com foco na prevenção baseada em evidências, sustentabilidade de políticas públicas e monitoramento processual obrigatório. Vale ressaltar que o Programa CRIA tem o Monitoramento e Avaliação como eixo transversal, o que permite o acompanhamento próximo da implementação das ações preventivas e a avaliação de seu verdadeiro impacto na comunidade. Como apoio a esse processo, foi elaborado o documento Guiando a Prevenção – Manual de Monitoramento para Gestores da Prevenção no Campo Álcool e Outras Drogas, desenvolvido em 2024 pela Senad em parceria com o UNODC.
Em sua terceira reunião temática, o Comitê destacou a necessidade de que a avaliação da implementação seja critério essencial para o Programa CRIA reconhecer, planejar e implementar práticas preventivas em território nacional. Assim, o grupo propôs que o programa adote diretrizes técnicas próprias para padronizar a avaliação de fidelidade, adaptação e cocriação, vinculando qualquer intervenção ao cumprimento mínimo dos requisitos indicados pela Ciência da Implementação.
Interseccionalidade
A última reunião de 2025 do Comitê Científico aconteceu em 11 de dezembro e discutiu sobre a interseccionalidade enquanto eixo analítico, ético e político, além de práxis política para abordar as desigualdades estruturais do Brasil. Membros do comitê debateram o papel potencial da interseccionalidade para o aprimoramento de programas públicos de prevenção ao uso e abuso de álcool e outras drogas no Brasil.
A discussão levantou pontos como a importância de que a interseccionalidade seja compreendida não apenas como conceito teórico, mas como ferramenta prática para a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas, considerando o entrelaçamento de vivências e desigualdades de raça, gênero, classe, território, sexualidade e idade. Integrantes do Comitê ressaltaram que abordagens preventivas universais tendem a falhar quando desconsideram desigualdades estruturais e contextos específicos, reforçando a necessidade de políticas integradas, pensadas para territórios específicos e sensíveis às múltiplas formas de vulnerabilidade. O debate pontuou, ainda, os desafios metodológicos de incorporar a interseccionalidade na pesquisa e na ciência da implementação, bem como a importância de evitar sua redução a um chavão acadêmico, garantindo sua tradução efetiva em práticas de cuidado, proteção social e justiça social.
CRIA Ciência
O Comitê Científico sobre Prevenção e Cidadania – CRIA Ciência, integrado ao Programa CRIA – Prevenção e Cidadania na política sobre drogas, tem o objetivo de fortalecer a ciência da prevenção e apoiar a gestão pública na formulação de políticas eficazes, fornecendo subsídios cientificamente qualificados para a tomada de decisão de gestores públicos, desempenhando um papel essencial no eixo de Construção de Evidências da política nacional sobre álcool e outras drogas no Brasil.
Segundo Nara de Araújo, diretora de Prevenção e Reinserção Social (DPRS) da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), “as reuniões temáticas marcam um passo importante dentre as contribuições do CRIA Ciência para a Secretaria, sendo um espaço estratégico de apoio à construção de respostas baseadas em evidências. Discutir temas como determinantes sociais, redução de danos, ciência da implementação e interseccionalidades é essencial para construirmos respostas mais amplas e duradouras, compatíveis com o contexto de desigualdades que afetam a vida das pessoas no Brasil. Além disso, os debates do Comitê em 2025 reforçaram seu compromisso como órgão consultivo para a Senad”.
Formado por pesquisadores(as) voluntários(as) selecionados(as) por meio de chamamento público via edital, o Comitê apresenta em sua composição interdisciplinaridade e representatividade regional e racial, além de trazer especialistas com experiências diversas em abordagens de raça/racismo/etnia e de gênero, de modo a refletir a diversidade social e cultural do Brasil. O atual comitê está vigente até dezembro de 2026.
Programa CRIA — Prevenção e Cidadania
O Programa CRIA — Prevenção e Cidadania, lançado em 2024 pela Senad, propõe uma estratégia nacional de prevenção do consumo e do uso problemático de álcool e outras drogas, da violência e criminalidade no contexto da política sobre drogas, para proteger o presente e o futuro das crianças, dos adolescentes, dos jovens e das comunidades.
O programa é realizado com o apoio do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime no Brasil (UNODC) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e possui três principais áreas de atuação: prevenção na infância e na adolescência; proteção em contextos de risco; e territórios em ação.
